Nota de rodapé 1

Aviso aos leitores que continuo escrevendo, porém farei uma pausa breve na publicação, para que ela não seja interrompida no meio do capítulo.

Em caso de curiosidade quanto aos desenhos do blog, confiram http://ingrid-p.deviantart.com/.

Publicado em Notas de rodapé | Deixe um comentário

II.10

Na quarta ou quinta volta que Henrique dava em torno da poltrona, verificou mais uma vez que o chão fora devidamente limpo. A faxineira que costumava ir a seu apartamento chegava sempre antes do almoço e nunca arrumava as coisas que se esperava que arrumasse. Entretanto, nesta ocasião, nenhum caco de vidro ou respingo de uísque sobrara na sala. De início sentiu alívio, pois Silvia não presenciou os estilhaços de copo espalhados pelo assoalho. Algumas horas depois, ocupava seus minutos nutrindo um arrependimento vão por não ter comunicado uma autoridade policial sobre a invasão em sua casa, e divagando se a sujeira de vidro e álcool teria alguma utilidade como evidência ou pista caso tivesse procurado a polícia.Do recipiente de madeira tirou um charuto sem ter vontade de fumar, a caixa aberta exalava odor agradável. O sentiu entre os dedos, ameaçou pegar o cortador e, hesitante, tornou a guardar os objetos. Sua angústia tremia-lhe as mãos ao fechar a tampa prendendo novamente o aroma do tabaco. Com o braço esticado, tocou a superfície de tinta seca sobre a tela que pendia da parede.A ousadia irritante de Silvia já o fizera permiti-la em seu apartamento, porém sua insistência em perguntar sobre aquele quadro foi para Henrique uma intromissão difícil de tolerar. Agora que ela havia ido embora, percebia que talvez a mulher não tivesse a persuasiva ardileza que ele associava a Silvia em sua imaginação, ainda que ela se esmerasse em sorrisos de forma tão natural que não parecia petulante demais. Era possível que não conseguisse ignorá-la somente por motivos profissionais, sem ter nada extraordinário que a fizesse tão atrevida e tão sagaz.Depois de afastar os dedos da pintura, Henrique deixou a gravata em uma cadeira e pegou as chaves no balcão. Com o paletó sobre o ombro direito, destrancou a porta e saiu – o apartamento parecia lhe sufocar como nunca ocorrera antes.

.*.

Publicado em II - Premeditação | Deixe um comentário

II.9

Quando o celular tocou, o rapaz da gravata afrouxada mastigou duas vezes e limpou a boca no guardanapo antes de atender. Sua surpresa com a voz do interlocutor o fez engasgar com o sanduíche, o que assustou duas pessoas que chegavam ao saguão de entrada, porém logo voltou a falar ao telefone. Avisou que a ligação talvez ficasse ruim porque entraria no elevador, e ao fecharem as portas, embora estivesse em um prédio residencial, mentiu que estava no escritório. Após fazê-lo, lançou um olhar de esguelha para aqueles que subiam os andares com ele, como se estivessem ali apenas para bisbilhotar.

Henrique notou Silvia morder o lábio inferior, como se isso mantivesse presa na boca a vontade de escutar a conversa do homem com quem compartilhavam o elevador. Assim que ela disfarçou um suspiro ansioso, o jovem ao celular percebeu que não apertara o botão do andar, e atrapalhou-se para fazê-lo, as mãos ocupadas segurando o sanduíche e o aparelho telefônico.

A atitude de esquivança e o esquecimento do rapaz fez Henrique recordar-se do invasor que o agredira sem motivo aparente em seu apartamento no dia anterior. Não havia reportado a ocorrência à polícia, pela pressa em chegar à reunião com os sócios. Agora a angústia se acumulava em gotículas de suor em sua nuca.

Por alguns segundos, sua fronte ficou fria e úmida, até que reparou que a voz do jovem, que ainda falava ao celular e que acabara de apertar o botão de um dos primeiros andares do prédio, não se parecia em nada com a voz rouca e seca que o ameaçara na noite passada. Henrique inspirou fundo antes de sair do elevador, seguido por Silvia, deixando para trás o confuso homem ao telefone.

.*.

Publicado em II - Premeditação | Deixe um comentário

II.8

Assim que a porta do veículo pendeu para o lado, alguém lhe alcançou e tocou seu braço. Um filete de suor contornou a artéria que em uma de suas têmporas pulsava indignada com a impertinência do momento. Henrique virou o rosto sem pressa, respirando devagar para acalmar-se.

– Que raridade encontrar o senhor fora do escritório a esta hora!

Sorriam-lhe os lábios rubros de forma curiosa, e também as pestanas piscavam curiosas sob a sombra suave da aba do chapéu. Não tinha uma imagem discreta, mas sempre chegava sorrateira de modo a não ser percebida tão logo se aproximasse. Silvia segurou a porta do automóvel e perguntou se poderia pegar o mesmo carro que ele, em um tom de voz tão determinado que até mesmo o humor apático de Henrique foi incapaz de contrariar. Após dar passagem a ela, entrou pelo outro lado do veículo, a contragosto.

.*.

Publicado em II - Premeditação | Deixe um comentário

II.7

Aumentados pelas lentes grossas, os olhares reprovadores da secretária eram repelidos pela indiferença de Henrique, enquanto ela enrolava um pedaço de gaze em sua mão e o prendia com um clipe a caminho da sala de reuniões. Seu atraso foi recebido por tosse e pigarros; ajeitou a gravata e o curativo frouxo ao se sentar. Tentou em vão evitar que a ansiedade girasse a caneta entre os seus dedos ininterruptamente, e concentrou-se em murmurar respostas vagas aos sócios. Até mesmo reparou na gota de sangue que lhe manchara discretamente o punho da camisa, a qual não notara antes, nem mesmo durante a histeria de sua assistente ao pôr os olhos no machucado que ainda sangrava um pouco quando ele chegou ao escritório. A reunião, contudo, permanecia distante, inalcançável pelo foco da mente.

Seus pensamentos apenas tangenciavam a noite anterior. Todo o seu universo, por um tempo que se esticava demais, parecia preso em eventos passados. E cada memória flutuava como se fosse simultaneamente recente e antiga. Por muito tempo Henrique achou que Ariel jamais o procuraria de novo, embora não soubesse o que desejar a esse respeito.

O rapaz dos olhos femininos tirara dele algo que Henrique já não tinha mais.

Era como se tivesse perdido tantas coisas, e tantas outras remanesciam sem que ele tivesse controle sobre elas. Com aquilo que restava, Henrique formava diariamente uma argamassa tosca de resignação, que lhe bastava para preencher os espaços da vida.

Aqueles olhos de Ariel foram por muito tempo um grande vazio. Quando essa lembrança lhe ocorreu, Henrique segurou firme a caneta que teimava em girar nos dedos, até que o machucado da mão recomeçasse a doer.

.*.

Publicado em II - Premeditação | Deixe um comentário

II.6

Havia luz demais para abrir os olhos. O sol que entrava pela janela queimava-lhe as retinas por entre os cílios semicerrados e ressoava em sua cabeça, um clarão de dor latejante. Seu rosto estava desconfortavelmente apoiado no assoalho, e ao tentar levantar-se, quase bateu a cabeça na mesinha em que costumava deixar os óculos de leitura. Ao colocar a mão no chão para erguer-se, estilhaços de vidro feriram-lhe a pele, não de forma profunda, mas o suficiente para sangrar um pouco. Henrique mal notara os pequenos cortes, e sentindo o cheiro de álcool que subia do piso umedecido, ficou em pé, os joelhos flexionados e o peso do corpo parcialmente amparado pelo verso da poltrona.

Algo no ar – talvez um odor, ou um som – denunciava à sua mente que aquela era uma manhã de segunda-feira, e que estava atrasado. Segunda-feira. Em seu caminho para o banheiro, carimbou uma manchinha vermelha em uma das almofadas do sofá, e continuou se apoiando na mobília e nas paredes até estar sob o chuveiro. Quase acionou a ducha quando ainda estava vestido, mas tirou logo as roupas suadas e banhou-se muito rapidamente, com água fria. Misturado a ela, escorreu do machucado na mão até o ralo um filete de sangue, que ardia sem que fosse percebido.

Enquanto despia as calças colocadas ao contrário, decidiu chamar um táxi. Já descendo de elevador, amarrou o cadarço dos sapatos, o carro o esperava na frente do prédio. Logo estava novamente subindo andares, em outro elevador, da empresa, cujo espelho serviu para ajeitar o colarinho da camisa. Somente quando passou os dedos pelos cabelos ondulados seus olhos cansados notaram o pouco de sangue que ainda saía dos pequenos cortes na mão. Xingou em voz baixa, e olhou ao redor, não havia ninguém no elevador àquele horário, devia estar mesmo atrasado. Com um apito, as portas se abriram no andar do escritório.

.*.

Publicado em II - Premeditação | Deixe um comentário

II.5

Já com o aparelho de volta no bolso do paletó, pousou um copo na madeira do assoalho com um som curto de vidro pesado. O homem caído aguardou imóvel tentando recobrar bem os sentidos enquanto mais um copo estava sendo preenchido, provavelmente pensando se na dose à sua frente havia alguma droga que o faria dormir. Então lhe disseram o contrário: não havia nada além de uma dose de uísque, deveria tomá-la, não fazia mal tomar do próprio uísque se só tinha álcool e gelo. Bem, não tinha gelo, mas não se nega um copo de boa bebida.

Devagar, Henrique sentou-se com as costas contra a poltrona, mal conseguindo olhar ao redor pelo atordoamento que ainda sentia, e segurou o copo com ambas as mãos. Moveu o pescoço em direções aleatórias, indeciso entre reagir e obedecer, sem pensar em nenhuma solução sagaz. Desejou estilhaçar o vidro contra a parede, talvez fosse uma reação estúpida, mas a cólera que se intensificava em seu peito insurgia-se contra a perspectiva de permanecer imóvel aguardando a próxima agressão. Infiltrando-se em seu nariz, o cheiro do álcool acordou-o das idéias ruins ao aproximar o copo da boca como se fosse beber seu conteúdo.

– Isso é um aviso – pela voz o agressor parecia estar perto, embora Henrique não tivesse percebido sua movimentação; os pêlos de sua nuca eriçaram-se, seu corpo inteiro retesado buscando prestar atenção ao que ocorria em volta, a mão erguida segurando o uísque diante do rosto estático – Não estou aqui pelo seu dinheiro, mas você deveria cuidar do que tem.

O ímpeto de Henrique foi um movimento brusco com o braço, tentando atingir de alguma forma o vulto próximo, gesto interrompido por um baque forte na lateral da cabeça.

.*.

Publicado em II - Premeditação | Deixe um comentário